Lula encerra visita ao Japão com dez acordos e quase 80 instrumentos de cooperação entre as duas nações
Em coletiva, o presidente da República destacou os avanços na relação entre os dois países e defendeu maior integração econômica entre o Japão com os países do Mercosul. Comitiva brasileira segue agora para o Vietnã.
Por Humberto Azevedo
O presidente Lula concluiu nesta quinta-feira, 27 de março, sua visita oficial ao Japão, celebrando os resultados alcançados ao longo dos quatro dias de compromissos para o fortalecimento de parcerias comerciais. Em coletiva de imprensa antes de embarcar para o Vietnã, Lula classificou a viagem como um marco na relação entre os dois países, com a assinatura de dez acordos e quase 80 instrumentos de cooperação.
A missão brasileira reuniu ministros, parlamentares, empresários e sindicalistas e trouxe avanços significativos em áreas como transição energética, tecnologia, educação e aviação. Um dos principais destaques foi o anúncio da venda de 15 jatos da Embraer para a maior companhia aérea japonesa, “All Nippon Airways” (ANA), em um contrato estimado em R$ 10 bilhões.
Além disso, Lula reforçou a necessidade de ampliar os laços comerciais entre os dois países.
“Saio do Japão muito satisfeito. Essa foi a visita mais importante que fiz ao Japão, das cinco que já fiz. (…) Queremos vender e comprar. Queremos que as indústrias brasileiras estejam no Brasil produzindo etanol, biodiesel, hidrogênio verde, carro híbrido com tecnologia avançada para contribuir com a descarbonização do planeta”, afirmou o presidente.
MERCOSUL
Outro tema central da visita foi a possibilidade de um acordo entre o Japão com os países que integram o Mercosul. Além do Brasil, o bloco econômico envolve Argentina, Paraguai, Uruguai e tem o Chile como sócio-parceiro. Lula afirmou que pretende acelerar essas negociações assim que assumir a presidência do bloco sul-americano no segundo semestre deste ano.
“Se depender de mim, vai acontecer o que aconteceu no acordo com a União Europeia. Vou trabalhar para que a gente possa fazer um acordo com o Japão”, afirmou.
CARNE
Lula também comentou o objetivo da visita oficial que foi abrir o mercado japonês para a carne brasileira.
“Temos uma carne de alta qualidade e livre de febre aftosa. O primeiro-ministro japonês garantiu que enviará especialistas para analisar nossos rebanhos. Acredito que ainda este ano teremos uma solução para essa questão”, declarou Lula.
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA
Temas como energia limpa, meio ambiente e a transição energética também foram tratados nas discussões. O governo brasileiro propôs uma cooperação entre os dois países para recuperar 40 milhões de hectares de terras degradadas no Brasil e convidou empresas japonesas a investirem em energias renováveis.
“O Japão está disposto a adotar 10% de etanol na gasolina e começar a produzir biodiesel. O Brasil é o lugar ideal para essa transição”, afirmou.
COP-30
Na entrevista coletiva, o presidente brasileiro reforçou ainda o compromisso do país com a 30ª edição da Conferência sobre Mudança do Clima das Nações Unidas (COP-30), que será realizada entre os dias 5 e 21 de novembro na cidade de Belém, capital do estado do Pará.
“Queremos uma COP com seriedade, que traga decisões concretas para impedir que o planeta aqueça mais de 1,5°C”, destacou.
MULTILATERALISMO
No campo da geopolítica, Lula defendeu a necessidade de fortalecer o multilateralismo e reformar o conselho de segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo o presidente brasileiro, a viagem ao Japão também serviu como uma oportunidade para reafirmar o compromisso do Brasil com a democracia e o livre-comércio.
“A governança global perdeu representatividade. Hoje, os membros do Conselho tomam decisões unilaterais e têm direito a veto. Isso precisa mudar. (…) Temos que vencer o protecionismo e fortalecer o comércio global. Queremos mudanças na governança mundial para garantir uma representação mais justa no século 21”, afirmou.
VIETNÃ
Encerrada a visita ao Japão, o presidente Lula já desembarcou em Hanói, capital do Vietnã, para a segunda parte da viagem à Ásia. Esta é a segunda visita de Lula ao país, onde permanece até sábado, 29 de março. A primeira ocorreu em 2008, quando tornou-se o primeiro mandatário brasileiro a visitar o Vietnã. A viagem marca um processo de aproximação política entre as duas nações e representa um gesto de reciprocidade à visita do primeiro-ministro Pham Minh Chính ao Brasil, em setembro de 2023.

Durante a visita, será adotado o “Plano de Ação” para implementar a “Parceria Estratégica”, estabelecida em novembro de 2024. O “Plano de Ação” define ações e iniciativas com vistas a intensificar o diálogo, a cooperação e aproximar ainda mais os dois países. A visita busca, ainda, fortalecer a presença brasileira no Sudeste Asiático e as relações com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), região mais dinâmica do mundo em termos de crescimento econômico.
Serão assinados acordos bilaterais nas áreas de promoção do comércio, segurança da informação e facilitação de trabalho para dependentes do pessoal diplomático. No Vietnã, Lula manterá encontros com os líderes dos quatro pilares do sistema político vietnamita: o presidente, Luong Cuong; o primeiro-ministro, Pham Minh Chính; o presidente da Assembleia Nacional, Tran Thanh Man; e o secretário-geral do Partido Comunista, Tô Lâm. O saldo na balança comercial a favor do Brasil é R$ 2,32 bilhões (US$ 405 milhões).
Esta visita acontece depois de 17 anos desde quando o presidente Lula fez a primeira visita ao Vietnã. De lá para cá, houve um forte crescimento do comércio entre os dois países, que passou de R 3,06 bilhões (U$ 534 milhões) em 2008 para R$ 44,2 bilhões (U$7,7 bilhões) em 2024, um recorde na série histórica. A meta conjunta é chegar a R$ 86 bilhões (U$ 15 bilhões) em 2030.
O embaixador do Brasil no Vietnã, Marco Farani, registrou que a visita ocorre no contexto de um país em crescimento e uma região projetada para o futuro. Em 2024, Brasil e Vietnã celebraram 35 anos de relações diplomáticas. A relação foi elevada a “Parceria Estratégica” em 17 de novembro de 2024, em encontro de Lula e do primeiro-ministro vietnamita à margem do encontro de cúpula das 20 maiores economias do planeta (G20), ocorrida na cidade de São sebastião do Rio de Janeiro (RJ), quando o presidente brasileiro foi convidado a visitar o país asiático.
Nos últimos dois anos, Lula reuniu-se três vezes com o primeiro-ministro Pham Minh Chinh: em maio de 2023, em Hiroshima, nas reuniões bilaterais da cúpula dos sete países mais ricos do mundo (G7); em setembro de 2023, em Brasília, durante visita oficial do líder vietnamita; e em novembro de 2024, em São Sebastião do Rio de Janeiro, no encontro de cúpula do G20.
MERCADO EM EXPANSÃO
O Vietnã consolidou-se como principal origem das importações brasileiras oriundas da ASEAN, além de ter sido o 14º fornecedor mundial de produtos para o Brasil. O Brasil exporta mais para o Vietnã do que para Portugal, Reino Unido, França ou Paraguai. O Vietnã ocupa a quinta posição entre os países de destino de produtos do agronegócio brasileiro. O Brasil fornece cerca de 70% da soja importada pelo Vietnã, além de ser o principal fornecedor de carne suína (cerca de 37%), o segundo maior de carne de frango e de algodão.
“O Sudeste Asiático é hoje a região mais dinâmica do planeta, com as economias todas aqui crescendo uma média de 4% a 5% ao ano. Entre todas as economias do Sudeste Asiático, o Vietnã é a que cresce mais rápido: no ano passado cresceu 7% e este ano a previsão é de 8%”.
COURO

Atualmente, o Brasil busca promover a diversificação da pauta exportadora, altamente concentrada em commodities, e tem interesse em oportunidades para acessar o mercado vietnamita para carne bovina; aeronaves civis e militares. O anúncio da viagem já permitiu avanços em antigas reivindicações do setor exportador brasileiro. Em janeiro, o Vietnã anunciou a dispensa de Certificado Sanitário Internacional (CSI) para a importação de couro do Brasil. Neste mês de março, autorizou a importação de miúdos e pés de frango do Brasil. Neste contexto, será realizado Foro Empresarial Brasil-Vietnã. O presidente Lula e o primeiro-ministro Pham Minh Chính são esperados no encerramento do evento, no sábado, 29 de março.
Plano de Ação, a ser adotado durante a visita, conterá as prioridades do relacionamento bilateral em matéria de assuntos globais, como defesa, economia, comércio e investimentos; agricultura e segurança alimentar e nutricional; ciência, tecnologia e inovação; meio ambiente e sustentabilidade; transição energética e cooperação sociocultural e assuntos consulares. A Parceria Estratégica deve aprofundar o diálogo político, reforçar a cooperação econômica, intensificar o fluxo de comércio e os investimentos, fortalecer a coordenação em temas da agenda multilateral e impulsionar novas iniciativas de cooperação. O Vietnã é mais um país que apoia o Brasil em seu pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Com informações de assessoria.